A excrescência dentária é uma manifestação rara da hipercementose, caracterizada pela formação de projeções irregulares de cemento ao longo da superfície radicular. Embora muitas vezes passe despercebida nos exames convencionais, essa alteração pode ter impacto direto no planejamento clínico — especialmente em procedimentos cirúrgicos.
Neste artigo, você vai entender como identificar, interpretar e valorizar esse achado na prática radiológica, com base em um caso clínico descrito na literatura científica.
O que é excrescência dentária?
A excrescência dentária pode ser definida como uma forma incomum de hipercementose, em que há crescimento excessivo de cemento na forma de “espículas” ou projeções ao longo da raiz.
Diferente da hipercementose clássica — que geralmente se apresenta como um espessamento apical mais uniforme —, a excrescência apresenta:
crescimento irregular e focal
projeções em forma de “espinhos”
distribuição ao longo da raiz (não apenas no ápice)
Essas projeções são contínuas com o cemento radicular, confirmando sua origem estrutural.
A etiologia da excrescência dentária ainda não é completamente estabelecida, mas a literatura aponta alguns fatores associados:
- Sobrecarga oclusal / trauma funcional
- tensão em fibras do ligamento periodontal
- deposição irregular de cemento
- fusão ou calcificação de estruturas periodontais (cementículos)
Além disso, a hipercementose como um todo pode estar relacionada a: inflamações periapicais, erupção compensatória e condições sistêmicas (menos comum).
Por que esse achado é clinicamente relevante?
Esse é o ponto mais importante — e onde o radiologista agrega valor real.
A presença de excrescências pode:
- aumentar a retenção do dente no alvéolo
- dificultar a luxação
- elevar o risco de fratura radicular
- tornar a exodontia mais complexa e imprevisível
No caso descrito, a extração apresentou resistência inesperada, justamente devido às projeções cementárias não identificadas previamente.
Além disso, alterações na morfologia radicular também podem impactar:
- planejamento endodôntico
- determinação do comprimento de trabalho
- instrumentação e obturação
Diagnóstico por imagem: onde mora o desafio
Um dos pontos mais críticos desse tema é o diagnóstico.
Radiografias convencionais (como panorâmica ou periapical) podem:
- não evidenciar as excrescências
- gerar falsa sensação de anatomia radicular normal
No caso apresentado, o exame panorâmico não mostrou nenhuma alteração significativa.
👉 Isso reforça um ponto-chave:
Alterações radiculares tridimensionais podem ser subdiagnosticadas em exames bidimensionais.
Por isso, a tomografia computadorizada de feixe cônico (TCFC) se torna uma ferramenta essencial para: avaliação detalhada da superfície radicular, identificação de irregularidades e planejamento cirúrgico mais previsível.
Diagnóstico diferencial e Classificação
A excrescência dentária pode ser confundida com outras condições radiopacas associadas à raiz, como:
- cementoblastoma
- osteoesclerose idiopática
- cálculo dentário
- displasias ósseas
O diferencial está principalmente em: continuidade com a raiz, ausência de comportamento expansivo e padrão de crescimento irregular, porém não neoplásico.
A hipercementose pode se apresentar em diferentes padrões morfológicos:
- em “clava” (club-shaped)
- focal
- e, mais raramente, em forma de excrescências (espículas)
Conclusão: por que o radiologista precisa reconhecer isso?
A excrescência dentária pode ser rara — mas seu impacto clínico não é. Ela representa um tipo de alteração que:
- pode passar despercebida
- não aparece claramente em exames convencionais
- altera diretamente o planejamento cirúrgico
E é exatamente aqui que entra o papel estratégico do radiologista:
Não é apenas identificar alterações — é antecipar dificuldades clínicas.
Reconhecer padrões como esse permite:
- orientar melhor o clínico
- evitar intercorrências
- elevar o nível do laudo
Texto escrito pela Dra. Leticia Teixeira
Instagram @leticia.radiologista
Referência: Jeddy N, T R, C K, R S, Prabakar R. Localized multiple cemental excrescences: a rare presentation of hypercementosis. J Clin Diagn Res. 2014 May;8(5):ZD16-7. doi: 10.7860/JCDR/2014/8987.4367. Epub 2014 May 15. PMID: 24995256; PMCID: PMC4080077.




